No que se refere às coisas que acontecem ou deixam de acontecer no decorrer da vida, sempre me pareceu que existem duas posições opostas que as pessoas se agarram, para justificar tais episódios. São, em essência, o que chamam de “destino” e “acaso”. Digo em essência porque podem haver as mais variadas explicações para o destino (como Deus, ou um tal livro imaginário onde dizem que ‘está tudo escrito’, ou três velhas com linhas...) ou outros nomes para o acaso (desordem, falta de Deus, azar/sorte, etc.).
Andei pensando sobre isso. Antes eu estava do lado do caos, como todo ateu adolescente que se preze. Agora, depois de uma reflexão (e de um referencial teórico fenomenológico) eu entendo a parada de outra forma, e vou tentar compartilhá-la. Primeiro o desenvolvimento para depois as conclusões.
O ser humano é um animal que busca sentido para as coisas (pelo menos o único que consegue informar isso, já se os outros animais também buscam sentido, não sei o que dizer agora). Sua compreensão precisa abarcar o mundo externo, seja através das suas percepções (o que sente), seja através de teorias (o que acha que sabe). Esse entendimento precisa estar completo, mesmo que não se tenha certeza de alguns (ou muitos) dados. O escuro é um dos maiores medos da humanidade, é a incerteza concreta, não se sabe onde estão as coisas, nem para onde ir. É preciso tatear, ter segurança de alguma coisa, se apoiar em algo. Eis aqui o surgimento da religião, da filosofia e da ciência. São métodos humanos para preencher o vazio do desconhecimento, este que causa tanta angústia. O preconceito (ao meu ver) surge aqui, no sentido de conhecimento prévio, antes da experiência. Surge porque a experiência nova é desconhecida, e o desconhecido causa angústia, logo um conceito qualquer que pareça fazer sentido para qualificar a experiência nova é estabelecido. Uma coisa precisa ficar clara: não estou justificando nenhum preconceito discriminatório, pois hoje temos possibilidades de informação o suficiente para ficar se apoiando em idéias próprias e absurdas. A questão é que o preconceito sempre vai existir, o que se faz com ele é o que importa. Voltando, o “destino” é uma tentativa de preencher a lacuna de conhecimento sobre todos os fatores que influenciaram um determinado ocorrido, além de trazer uma intencionalidade abstrata acoplada (tipo: “Deus quis” ou “era para ser assim”...). Como se tivesse alguém gerenciando os acontecimentos aqui na Terra. Não quero discutir a existência desse “manager superior” porque minha intenção é outra. É mostrar que o ser humano se projeta nas coisas sem perceber. Gerenciamento é uma atividade humana, por que haveria isso num mundo muito mais antigo que nós mesmos? É uma necessidade de ordem que não percebemos como nossa, e nos faz repetir frases como: “nesse mundo nada é por acaso”, ou “é porque não era para acontecer”...
Enquanto o acaso assusta, também serve como forma de rebeldia. É atraente para aqueles que querem provar que são “grandes o suficiente” para serem religiosos. Mas a compreensão sobre o caos é impossível, pois se um dia ela for possível, o caos não será mais caos. Desordem e imprevisibilidade são deseperadores. Tanto que diziam que a anarquia era sinônimo de desordem, o que é uma inverdade que facilmente se alastrou, porque as pessoas precisam dar sentido as coisas que não conhecem (se você ainda acha que anarquia é desordem, sugiro que LEIA a graphic novel de Alan Moore, “V de Vingança”). Enfim, a imprevisibilidade é dada quando a consciência humana, mesmo depois de tentativas, não consegue assimilar um fenômeno. Para essa escuridão, há duas saídas: dar um sentido (inventar uma teoria, uma desculpa, aceitar que não dá para entender) ou negar o assunto (esquecer, se focar em outra coisa).
A Ciência é a tentativa da humanidade de compreender a realidade, dar uma ordem. Mas o universo é tão grande que cada resposta gera mais perguntas, que não podem ser abarcadas no raciocínio mecanicista, linear, onde todo efeito tem uma causa. A ampliação da visão de um fenômeno qualquer permite notar que existem processos desconhecidos para os sujeitos de tal fenômeno, pois estes focam sua percepção para aquilo que mais lhe interessa. Assim, de acordo com suas crenças e percepções, as conclusões de destino e acaso vão se sobrepondo.
Eu concluí que há ordem e caos atuando juntos, nos acontecimentos. A ordem está na multideterminação dos ocorridos, um raciocínio mais amplo que o mecanicista, onde muitas causas contribuem para um efeito que contribui para outra causa que vai interferir em outras coisas. Só que é uma rede tão ampla de causas e efeitos, que não dá para controlar muitas coisas. É aí que eu observo coisas como “destino”. E o caos está justamente na falta de intencionalidade desta multideterminação de acontecimentos. A intencionalidade, o “era para ser assim”, é humano. O humano é o animal que dá valor às coisas, mas acredito que as coisas estavam aqui muito antes do humano. Não que eu esteja depreciando o humano, só estou concluindo que não somos o último biscoito do pacote (para maior reflexão ver o vídeo de George Carlin “Save the planet”: http://www.youtube.com/watch?v=X_Di4Hh7rK0 ). É aí que eu observo o “acaso”.
Ja conhecia o blog, mas só de olhadas rápidas. Agora parei pra ler direitinho, e gostei muito. Sem dúvida serei uma fiel seguidora disso aqui! hehe
ResponderExcluirGostei muito do texto, da forma que foi escrito e do conteúdo em si. Falta ainda ver o vídeo sugerido no fim do post. ^^ Então, vou lá. Bjinhos