domingo, 5 de dezembro de 2010

Anedotas





Bem, então irei começar meus contos com uma história que deixarei vocês leitores a julgar boa ou ruim.



Um estranho no ninho




Era uma noite como todas aquelas outras noites de Teresina, uma cidade que parece ser esquentada pelo hálito do capeta. Então você já consegue adivinhar o quão agradável estava o clima ao se encontrarem os amigos de praxe em frente à casa de nosso estimado “Bunda” por volta das nove da noite. E lhe digo, para sua surpresa, que por alguma razão nesse dia o diabo deveria estar chupando halls, pois a noite trazia ventanias agradáveis deixando a noite bem agradável para uma caminhada até o point do cachorro-quente. Fomos nós três, eu Edgar Allan Pomps, Lupan III e o nosso estimado Bunda, que na data estava em uma das épocas mais magras, embora a bunda estivesse inalterada, o que é muito bom, pois do contrario nosso amigo não seria mais merecedor da alcunha glutal. Andamos pela estrada de pedra ate chegarmos a uma rua asfaltada e bem movimentada da zona leste, a Dom Severino. E descendo passávamos por um misto de classe media e subúrbio a medida que cruzávamos com moribundos e suas bicicletas cheias de pó e lindas jovens que iam ou vinham de alguma academia. Embora nada disso importasse pois estávamos bastante distraídos com besteiras em geral contadas para fazer o caminho tornar-se mais rapido. Mas parávamos de conversar subitamente se o objeto adiante fosse uma mulher admirável. Pois oras, somos homens! E ainda por cima nerds, ou assim a sociedade desta maldita cidade considera. E era engraçado que quando se aproximava um desses magníficos seres incompreensíveis, adotávamos comportamentos completamente diferentes. Alem da conversa parada, todos olhavam dos lados para ela e novamente aos lados. Não sei os outros, mas eu tentava ser o machão, e fazia coisas tais como: estufar o peito, andar de um jeito legal, e lançar um olhar sensual. Mas acho que o máximo que eu conseguia era imitar uma feição de quem estava com dor de barriga.


Após alguns minutos de caminhadas e conversas chegamos ao museu maçônico e conseqüentemente a barraquinha de cachorro quente, onde ocorre o fato que me levou a escrever este texto. Como estava lotada de costume, fomos logo nos preocupando em conseguir uma mesa,que por sorte ou acaso do destino, estava lá, esperando por nós. Organizamos-nos de uma maneira rápida e prática, dois de nós ficaram a mesa e um terceiro foi fazer o pedido, que foi algo bem farto, pois nesse dia a providência divina teria colocado dinheiro suficiente nas mãos de Lupan para pagar dois cachorros quentes para cada um. Passado alguns minutos após a chegada de nosso amigo da fila, lembro-me que comentávamos sobre cinema, mais especificamente sobre os filmes de Quentin Tarantino e porque a maioria das pessoas não gostava de filmes realmente bons. E isso concentrou nosso foco apenas em nós mesmos, esquecendo do resto da multidão e principalmente de uma figura apenas comum demais para se diferenciar das demais. Transcorrido algum tempo, o suficiente apenas para o cheiro do molho nos deixar famintos, chegam os pedidos. Começamos a comer e havia aquela figura inquieta ao nosso lado que olhava para a mesa como se quem estivesse com muita fome, embora isso fosse algo contraditório, pois ele já estava comendo o seu próprio alimento. Ficou olhando ate que venceu a vergonha e falou conosco. E nesse momento eu tenho este pensamento: ”finalmente ele vai pedir a cadeira e sair”. Mas quando ele diz: ”Posso me sentar com vocês”, eu, como bom misantropo que sou penso: ”Droga”. “Finjam que não estou aqui” ele disse, e foi justamente isso que eu tentei fazer, o que funcionou até certo ponto.

Tentando não me virar para a direita e tomando meu refrigerante observava lentamente a mudança do foco da conversa que passava de simples opiniões para uma critica impiedosa da sociedade. A paisagem noturna e o bem estar de estar satisfeito me afastava um pouco daquela realidade e estava quase me esquecendo daquele estranho no ninho quando de forma súbita o seu anonimato é destruído. Ele se aproximou da mesa sorrateiro e com o olhar de quem guardava algo ilícito e disse-nos “Desculpe interromper a conversa, mas...”. Pausou por um momento e seguiu com o olhar a garçonete que passava frente a nós, ”Deixe a moça passar”. O suspense que ele havia lançado no ambiente deixou todos a sua volta com o olhar compenetrado e tenso, como se uma lona pesada de incerteza e curiosidade tivesse caído e coberto esses personagens. Os segundos compassados com os passos da mulher que se afastava eram como batidas lentas de um relógio de ansiedade aguda, mal nos deixando respirar. Toda nossa atenção era voltada para ela, e finalmente quando esta se foi, nosso corpo em forma de abutre voltava-se para o homem misterioso, que se curvou mais ainda e sussurrou “Tenho algo a falar para vocês”. Nesse ponto nossa expectativa estava no máximo. Esperávamos qualquer coisa, que ele dissesse que era deus ou o diabo, que queria vender drogas, ou que os cachorros-quentes não foram preparados com higiene. Mas ele disse “Estou tendo orgasmos intelectuais”. Essa frase ficou ecoando pela minha mente por durante 3 segundos “orgasmos intelectuais... orgasmos intelectuais... orgasmos intelectuais...”. Passado esse choque, lentamente recobramos a consciência e continuaram os três indivíduos a conversar. Eu só observava,pois eu não achava nada para falar. O que eu iria dizer? “Obrigado”, “O prazer é todo seu”, ”Foi bom para você?”. Enfim, deixei que Lupan e Bunda conduzissem o diálogo, que se não me falhe a memória, foi apenas uma troca de cortesias, dentre as quais o estranho demonstrava profunda admiração por nossas capacidades mentais e ao mesmo tempo surpresa por existir pessoas com um nível de mentalidade igual ou superior ao dele aqui em Teresina. Lembro-me dele dizer que passava vários momentos “forever alone” na sua faculdade onde ele não conseguia se inserir nos círculos dos playboys e das patricinhas. E os meus amigos foram bem solidários ao explicar a situação fazendo que o rapaz se sentisse um pouco menos fora do ninho.

Já no final dessa conversa fomos nos despedir, e isso foi algo que eu não consegui fazer direito. Pois quando estávamos levantando da messa,o rapaz disse-nos “foi um prazer conhecer vocês” e um lapso de memória piscou em mim “Orgasmos intelectuais”. Nesse momento eu quase disse “O prazer foi todo seu”, mas não. Fui educado e disse o que as pessoas normais costumam dizer. Eu com um sorriso que vagava entre a educação e o desconforto disse “ O prazer foi nosso” e me senti muito mal nessa hora.Ainda hoje não sei o porquê. Mas sei que fomos embora dali e na volta comentávamos do ocorrido sorrindo tudo o que não sorrimos à mesa por respeito àquela criatura ingênua e ao mesmo tempo amigável. E em meio a gargalhadas estrondosas cada um disse o que imaginava que ele fosse dizer. “Pensei que ele fosse dizer que estava cagado” disse eu, e uma onda de risadas surgiu alto na rua. “Pensei que ele fosse dizer que pegou a garçonete” disse o Bunda. “Orgasmos intelectuais” foi nosso assunto naquela semana e ainda hoje reverbera ocasionalmente quando passamos perto de algum cachorro-quente ou quando queremos contar algo engraçado.




Uma das coisas que tirei dessa experiência foi: não importa a sua experiência de vida ou inteligência, você não estaria preparado para ouvir um comentário desses. Provavelmente essa foi a frase mais bizarra que já ouvi, e não foi pelo significado em si,mas pela conturbação de pensamentos que esse comentário causou. Foi uma mistura de sentimentos e pensamentos contrários que se anularam deixando apenas a estranheza no lugar de alguma coisa.

4 comentários:

  1. O negócio é o cara ser burro!

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  2. Orgasmos intelectuais *-*

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  3. Rpz, só estando lá pra entender como foi tenso...
    O cara parecia tudo: um nerd, um pai de família, um sociopata... tudo, menos alguém que têm orgasmos intelectuais...

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  4. Ué, orgasmos intelectuais Pomps, sensualize, vc experienciou o aqui-e-agora da noite e ainda teve um insight, viva a gestalt o/! uheuheuehuhuhuhuheueh,
    Abç
    Thayana

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